Por: Antonio Otaviano Vieira Junior (UFPA)
Frei José de Madalena da Ordem do Carmo, ainda no século XVIII, foi um dos primeiros a utilizar inoculação no combate a varíola no Grão-Pará. A inoculação era um método simples e baseava-se na contaminação induzida a partir do pus das feridas de doentes. José de Madalena, como religioso na Amazônia da década de 1740, se deparou com uma sequência de surtos na região, o que lhe ampliou a preocupação com a mortalidade de índios sob a administração dos carmelitas. Esses índios viviam em missões, após “descerem” das suas aldeias eram submetidos a uma educação religiosa católica, obrigados a falarem português e também utilizados como mão-de-obra por religiosos e colonos. E mais, ainda conviviam com as doenças trazidas pelos brancos, como a varíola e o sarampo. No dia 02 de setembro de 1750, o frei José de Madalena fez um levantamento dos índios mortos pelo “contagio do sarampo” nas missões dos carmelitas. A contagem foi nos rios Negro e Solimões (área de ação dos carmelitas), onde foram quantificadas as mortes e “deserções” em 17 missões. O total de mortos pela epidemia é assustador: 2.288 índios mortos. No entanto também é igualmente alarmante o número de “desertados”, expressão utilizada pelo religioso para designar índios que fugiam do contágio: 345 “desertados”. Foram indígenas que com o medo da doença fugiram para outras localidades, em geral voltando para suas aldeias e povos. Assim, esses “desertores” intensificavam a circulação do vírus, alcançando lugares mais dentro da floresta e longe das vilas dos brancos e olhares dos religiosos.Hoje em tempo de covid-19 e na dificuldade de “desertarmos” fico imaginando se a abertura de shoppings e o retorno às aulas agendado para 01 de julho, pela Secretaria de Educação do Pará, não seria a parcela de contribuição do Estado para uma possível intensificação do contágio... voltaremos para nossas aldeias?!
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