sexta-feira, 24 de abril de 2020

Medo … temor … & pânico … em pandemias sucessivas

Por Jane Felipe Beltrão (UFPA)

vídeo em:
https://www.youtube.com/channel/UCku6jMkVku-g1atjk3j-QBQ?view_as=subscriber

Discutir medo, temor e pânico é meu objetivo, pois as autoridades sanitárias parecem ignorar o que acomete as pessoas em tempo de sucessivas pandemias, antes, durante e após o evento. O uso dos vocábulos e a sequência não é aleatória, ela me parece ser a ordem da surpresa diante daquilo que consideramos improvável!
Duas cenas diferenciam e separam a expressão da pandemia na Europa e na América Latina. A primeira diz respeito aos caminhões enfileirados, levando os corpos de italianos/as para longe. A segunda é a visão de Guaiaquil (Equador) devastada pela COVID-19 e os corpos espalhados pela cidade. A visão das cenas para muitas pessoas seria improvável. Ver o evento ao largo mete medo, gera temor, mas ainda não é o pânico. Olhar as covas enfileiradas e abertas em São Paulo, assusta! O pânico chega com os corpos de pessoas ceifadas pelo coronavirus, convivendo com os doentes, ainda com vida, em Manaus/Amazonas. O fato assuste aqueles/as que jamais ouviram as narrativas dos sobreviventes de Eldorado dos Carajás, o Massacre da Curva do “S”, que fez 24 anos dia 17 de abril de 2020.
As cenas me permitem deixar de lado as categorias e passar a discussão dos estados usando, como suporte de argumentação, as pandemias de Cólera dos séculos XIX (1855) e XX (1991) correlacionando-as à Pandemia COVID-19 que afetaram/a o mundo de forma avassaladora.
A História nos auxilia a percorrer caminhos que com o tempo somos levadas/os a olvidar, pois as gerações se sucedem e, a memória coletiva, “sabiamente” procura esquecer os acontecimentos considerados desagradáveis, os quais só voltam a emergir em momentos que a História “parece se repetir”. O coronavirus produz uma situação extrema sobre a qual algumas pessoas se recusam a enfrentar e, outras, por dever de ofício – historiadoras/es e antropólogas/os – insistem em recordar, pois as pandemias sempre ceifam a vida de muitas pessoas, acometem outras tantas pessoas e a disputa política se faz presente. Ontem, como hoje, as situações se assemelham guardadas as diferenças entre elas e o contexto em que se desenrolam.
Ofereço, agora, alguns elementos referentes as três pandemias, para que – guardadas as devidas proporções e os contextos – pensemos no medo e no terror do contágio que produz o pânico. Pânico incontrolável, pois a população não confia nas autoridades sanitárias, as quais carecem de credibilidade.
Nos três episódios mencionados, algumas questões se fazem presente.
1. As autoridades sanitárias, da província no século XIX; e da república no século XX e XXI negam o início do flagelo.
2. No século XIX e no século XXI não havia tratamento conhecido para pandemia. No século XX havia, mas as pessoas acometidas pela doença não acreditavam na possibilidade.
3. As autoridades-mores de saúde no século XIX, presidente da Junta de Higiene e nos séculos XX e XXI os Ministros da Saúde não foram poupados.
4. As pandemias não são democráticas, como se costuma dizer. Nos três eventos as classes perigosas – como se dizia no século XIX – foram/são as pessoas cujas vidas são precárias e não valem o luto, como ensina Judith Butler (2017).
Afinal,
“[a] dor é uma experiência terrível. Quem consegue atravessar e vencer essa barreira, torna-se mais forte e mais habilitado a dar o suporte necessário a quem nunca passou por uma tal experiência. A dor enfraquece o corpo, mas fortalece a alma. Habilita a mente a compreender realidades novas. A experiência de dor de uns pode ajudar a consolar e a superar a dor dos outros. A África sempre chorou na dor solitária de um continente. O coronavírus, covid 19, trouxe um choro de dimensão planetária. O mundo pode agora compreender a dor secular que os africanos sentiram pelos massacres e genocídios de outrora”. (Chiziane, 2020, sic.)

Para ler mais
Bardet, Jean-Pierre; Bourdelais, Patrice; Guillaume, Pierre; Lebrun, François & Quétel, Claude. 1988. Peurs et Yerreurs face à la contagion – Choléra, tuberculose, syphilis XIXe- XXe siècles. Paris: Librairie Arthème Fayard.
Beltrão, Jane Felipe. 2004. Cólera: o flagelo da Belém do Grão-Pará. Belém: UFPA/Goeldi.
Butler, Judith. 2015. Quadros de Guerra, quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Chiziane, Pauline. 2020. “Carta a Nataniel Ngomane” In: Pessoa. Disponível em: https://www.revistapessoa.com/artigo/2990/carta-a-nataniel-ngomane?fbclid=IwAR0KT3avfSBD8IW32A9csxcx_0h8YIKjmd_LZcuA0XEyBGy7aPuOOCQIOGA. Acesso em: 21.abr.2020.
Garrett, Laurie. 1995. A próxima peste: as novas doenças de um mundo em desequilíbrio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

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